terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Da Continuidade Arquetípica do Sagrado Feminino a Nível Global -- Exposição tópica

 
A materialização
 
Figuras paleolíticas de mulher corpulenta (mais antigo exemplar conhecido tem a idade de aproximadamente 35000)
 
Mulher sentada de Çatal Huyuk (7500 a 5700 AEC)
 
Representação da deusa Kybele na arte Greco-Romana (século VI AEC)
 
 
 
A transcendência
 
Ísis e Néftis assumem a forma de milhafre e falcão, ou de uma mulher alada. Ligadas à maternidade e a morte, respectivamente. Ísis também era a personificação do trono real, e Néftis personificação do sacerdócio institucional dessa sociedade teocêntrica
 
Também no Antigo Egito, a parte dos seres que acreditava-se não ser aniquilada ou dissolvida após a morte era conhecida como Ba, e representada como uma ave com cabeça humana (3150 AEC)
 
No relevo Burney, a misteriosa figura representada ostentando insígnias de divindade é retratada com um manto de plumas (século XIX/XVIII AEC)
 
Ainda na Mesopotâmia, Épico de Gilgamesh, a mais antiga obra literária conhecida, os mortos habitantes do mundo ctonico aparecem vestidos com mantos de plumas (literatura Babilônica do século XVIII AEC, mas inspirada em histórias Sumerianas muito anteriores)
 
As sereias, o feminino encantador na mitologia Grega, eram originalmente assistentes de Perséfone, as quais foram dotadas com corpos de pássaro por sua mãe Deméter para auxiliar na busca quando de sua abduzida por Hades para morar com ele no mundo ctonico. As sereias são três ninfas representadas ora com a metade inferior do corpo de ave, ou apenas com os pés de ave, como as figuras mesopotâmicas
 
Freyja, divindade da mitologia Escandinava, possui um manto de penas de falcão, que a conferia a habilidade de voar (mitologia escrita no século XIII EC, mas herdeira de tradições de literatura oral mais antigas)
 
Iyami Oshoronga, na mitologia dos Yoruba, assume a forma de aves de rapina em geral e especialmente o de coruja, já que são ligadas à noite e aos mistérios inconscientes que se revelam no transe onírico, representando tanto a capacidade de vôo da consciencia quanto o caráter protetor das aves para com sua prole. No corpus de literatura oral do sistema divinatório de Ifa, é representada originalmente como a deusa Oshun, uma mulher independente, insubmissa, e coroada, que intimida os homens por não se diferenciar muito deles em força e feitos. Seu caráter nos remete à Lilith do Zohar, hedeira de Lamashtu, uma deusa tão poderosa que já era "demonizada" em tempos pré-Abraamicos nas terras mesopotâmicas. Como Ísis, Iyami está intimamente ligada à instituição e mantença dos reis (mitologia escrita no século XX EC, mas herdeira de tradições do séxulo XII EC)
 
Urutau, ave noturna como as corujas, é, na mitologia dos aborígenes brasileiros da etnia Karajá, retratada como sendo do genero feminino. No mito, de viés claramente patriarcal, a ave é descrita como lamentante, uma mulher arrependida, entretanto a habilidade de se transformar, embora negligenciada e tida como uma espécie de infortúnio, está lá para lembrar de que se trata de um exercício de liberdade e poder criativo, não de uma triste sina aprisionante  (não datado)
 
Matinta-pereira, no folclore brasileiro, parece herdar, de modo ainda mais destituído de poder, as características do Urutau.
 
Pombagira, na religião brasileira Umbanda, solve e coagula esses dons universais supramencionados, com terror e graça. Curiosamente, o nome, possivelmente de origem Bantu, em Língua Portuguesa soa como "pomba gira", uma ave associada à Vênus e ao amor, movendo-se circularmente, girando.
 

 
Texto e Imagem: Laura Celestini.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Ore Yeye Oooo

A coletivização do feminino na cultura Yoruba (desde o culto aos ancestrais onde os femininos são referidos somente como Awon Iyami, e os masculinos por Baba Egungun individuais) até na história primordial do corpus literário de Ifa, no capítulo Oshe'Tura onde as divindades de natureza masculina são dezesseis e a feminina é uma só, mas diferentemente dos dezesseis genéricos, a mulher é identificada, é Oshun.
Esse tratamento parece sugerir uma visão simplificada das coisas. As... que repousam sob a égide das mulheres como sendo mais limitada que as que estão sob a dos homens. Exemplo, às mulheres atribui-se atividades domésticas como a criação dos filhos, a culinária e a responsabilidade pelo ambiente doméstico, controlado, estabelecido e mantido estável pelos homens que desempenham uma paleta maior de atividades especializadas como a construção de habitações, poder bélico/militar, agricultura, pecuária, caça, administração social e regência, etc.
Oshun representa a mulher (e a pessoa de modo geral, independente do sexo) que não se contenta em apenas manter o que os homens (ou uma maioria) constroem, e acatar o que eles decidem. Ela é aclamada em oriki "Obinrin bi okunrin" (mulher que é como um homem), "Alade obinrin showon" (é raro uma mulher coroada).
O tipo de Oshun é o da mulher corajosa, polivalente, sábia, aventureira, e autossuficiente, além das outras qualidades típicas do gênero feminino, como o cultivo da beleza e o cuidado com os filhos. Não é fragilidade, é beleza dotada de força!
Oshun é a pessoa que não aceita ser privada de nenhuma informação, não aceita ser excluída, que não concorda com algo só porque alguém disse, para que ela esteja de acordo é preciso que ela esteja a par da situação como um todo. É insubmissa. É o ser pleno de sua capacidade de execução, consciente de sua importância na composição do Todo. O mesmo se estende a todos os Orisha, são exemplos e fontes inesgotáveis de força, superação e realização do pleno potencial dos seres.
Oshun e Orisha eu vos amo.
(Imagem: Gregory Colbert)

sábado, 4 de outubro de 2014

Proverb

Kó wá kó lọ niyì òṣùpà tóṣùpá bá ti dàrànmọ́jú kò níyì mọ́. /
It's more honourable for the moon to show up and recede; it loses honour, when it is static and unreceding.
[Familiarity breeds contempt; what is unduly available loses value]

sábado, 27 de setembro de 2014

Completude é Divindade

As divindades incorporam elementos que parecem contraditórios à mentalidade mundana. Mas esta síntese de "opostos aparentes" constitui totalidade.
Em se tratando especificamente de Ológun Èdé vamos analisar estes elementos (com base em seus Oriki).
Beleza e Força:
Oda dohún (Belo até na voz)
O dara deyin oju (Belo até nos olhos)
Okunrin sembeluju (Homem muito belo)
Jagunjagun ninu Orisha (Guerreiro entre os Orisha)
Claridade e Escuridão:
Eyí báwùn ló nyí A yí dúdú lóla (Mostra a pele que desejar, se hoje mostrar clara, amanhã mostrará escura)
Firmeza/Solidez e Agilidade/Fluidez:
O wi be she be (Assim ele diz, assim ele faz)
Panpa bi asha, ashode bi ologbo (Veloz como o falcão, aquele que caça como um gato)
Ologun ayan firan (Ologun que surge rápido como o vento)
Individualidade/Solitude e Coletividade/Comunhão:
Okanshosho (Único, Sozinho)
Tima lehin Yeye re (Montado nas costas de Oxum)
Abikehin Yeye tii yo gbogbo omo omi lenu (Filho mais novo de Oxum que se diverte com os outros filhos da água)
Criatividade/Loucura e Precisão/Disciplina:
Alapa fari (Agita os braços com imaginação) 
Rederede fe o ja (Feito um louco ele briga)
Ashiwaju Orisha (Líder dos Orisha)
Generosidade/Prontidão e Violência/Orgulho:
O gbe gururu sobe olori (Ele põe um grande pedaço de carne no molho do chefe)
Shosho lowuro o ji gini morun (Ágil, ele já se levanta de manhã  com o arco e as flechas pendurados no pescoço)
O pa oruru (Ele mata o mal feitor)
O kó ra sile ibi ati nyimusi (Ele levanta o corpo [do malfeitor] no chão da casa e empina o nariz)
Nobreza e Belicosidade:
E wá wo adé baba mi, o mó roro, o kè roro (Venham ver a coroa de meu pai, é muito brilhante, é muito grande)
Ashiwaju ogun (General de guerra).

Encontro

 
Nosso amor infinito é atração
E nos encontramos na arena da atemporalidade
Como presenças invisiveis de pura sensualidade
Vens cavalgando um animal selvagem
E me arrebata para junto da sua caçada existencial
Em meio ao prado encharcado
Suntuoso
Nas ondas de revolução estética do som da coletividade de todas as criaturas indomáveis
Pela imensidão cíclica da Terra
Banhada pela luminosidade liminal
De crepúsculo e aurora
Ali onde a razão cede ao puro sentir
E o ser é pleno de contentamento
És a água e o alimento
És o abrigo e o acalento
Tudo em liberdade
Para sempre
Amar

domingo, 21 de setembro de 2014

Bendito é o teu ventre, Óshun!

Saúdo a providencia da nossa Amorosa Mãe, Óshun
Saúdo a excelência da tradição do Habilidoso, Ogun
Na adversidade não tarda e não falha
Mãezinha de Ijesha
Que gerou aquele que é invencível nas batalhas
Senhor de Ire
Que virtudes legou àquele, Ologun-édé
O pilar cuja força é o sustento de vosso povo
O protetor que assegura nossa paz
A paz que assegura nossa prosperidade
É muito ilustre
É muito brilhante
Assim ele é
Assim ele faz

Ashé Ashé Ashé

Historicidade

Este texto não visa diminuir a característica metafísica e arquetípica/impessoal (a força) do orisha. Foca na corrente (no físico) mas sem menosprezar onde ela está ancorada (no mistério).


Bàbárákẹ̀ Lóógun-ẹ̀dẹ.
(Grafia presente em: The Traditional Theologians and the Practice of Òrìṣà Religion in Yorùbáland. Author(s): Thomas Mákanjúọlá Ilésanmí. Source: Journal of Religion in Africa, Vol. 21, Fasc. 3 (Aug., 1991), pp. 216-226)

No mesmo documento consta o nome Bàbárákẹ̀, sozinho porém com a mesma grafia que aparece acompanhado do segundo nome composto 'Lóógun-ẹ̀dẹ', associado a uma cidade Ijesha chamada Igangan, na qual o mesmo ocuparia o posto de principal e exclusivo foco de culto.

Em Africana Marburgensia, Volume XXI, p. 27, temos a grafia Baba Arake, desta vez sem acentuação, também associada à Igangan. Embora aqui não se faça menção a Logun-ede, diz sobre o Baba Arake o seguinte "caçador do século dezessete".

Em History in África, Volumes 6-7, p.140 consta "Igangan localiza sua fundação no reinado de Waye, e tem Babarake como fundador, Babarake foi companheiro de Obalogun na Guerra Nupe. Obalogun é adorado em Igangan". O mesmo documento diz sobre Obalogun "adorado por caçadores e tido pela tradição como o herói que liderou Ijesha em sua vitória sobre os Nupe".

Caso o Loogun-ede quando junto de Babarake não seja uma alusão ao Obalogun, então Logun-ede fora o fundador de Igangan. Ou então Logun-ede é o Obalogun. De qualquer modo temos muitas características em comum com o orisha, são elas: associação à caça, à guerra, e o nome em si.

A caça e a guerra são intrinsecamente relacionadas na cultura Yoruba como um todo, deste modo é natural que uma personagem, quer tenha ou não o status de orisha, ser associada às duas atividades ao mesmo tempo, assim sendo o nome acaba sendo o fator determinante de identificação.

Sua ligação com Oshun é facilmente entendida. Já que ela é a divindade mais proeminente dessa região e desse grupo étnico (Ijesha).

No mesmo texto mencionado no primeiro paragrafo dessa postagem temos o seguinte "Ogun, Shango, Oshun, Orunmila, Obatala e Oduduwa eram heróis regionais antes de sua subsequente popularização. Alguns destes orisha foram tão popularizados politicamente e mitificados teologicamente, que eles acabaram assumindo reconhecimento universal, em teoria, dentre os Yoruba, sem referencia à seus locais e proveniências históricas originais".

Ao meu ver foi isso que aconteceu com Logun na diáspora, aqui com os orisha sendo cultuados em conjunto, cada um teve uma qualidade mais acentuada, diferentemente do que vemos nos oriki, ou seja, um orisha sendo o olodumare, o ser supremo de seu devoto, responsável pelo sucesso em todos os campos. Assim, aqui Ogun ficou com a belicosidade, Oshosi com as atividades de caça, e Logun-ede ficou como uma refração de Oshosi e de Oshun, possivelmente por estes dois possuírem mais devotos. O fato de Ogun, no Brasil, ser associado apenas à guerra e à metalurgia (e não também à caça) exemplifica bem essa simplificação, já que Oshosi era a divindade caçadora com mais devotos, o candomblé Ketu.
 
Nota: É interessante que o sufixo "kẹ̀" em Babarake possua a mesma grafia do kẹ̀ nos orin Logunedé colhidos por Verger e pelo Baba King.
 
 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ológun È̩dé̩

Uma exposição arquetípica.

 
É Guerreiro Caçador porque guerreia feito um caçador, isto é, planeja, rastreia, persegue os inimigos. Do contrário seria Caçador Guerreiro, acaso fosse um caçador que eventualmente guerreia.
 
O é dentre os Orixá. Orixá são as potências naturais, pristinas, as matrizes do universo cujos inimigos são os poderes de inércia, de desequilíbrio.
 
Ológun È̩dé̩ é a "inteligentzia bélica" Ideal.
 
Metamorfoseando-se sempre que é preciso ele incorpora a adaptabilidade da própria vida que é capaz de vencer as adversidades. Esta habilidade ilimitada de transformação simboliza a eficácia em todo e qualquer campo e circunstância.
 
Lua, leopardo, pássaros e serpentes são alguns de seus elogios, aludindo às suas qualidades de proteção, proeminência, mutação, assertividade, beleza, e prosperidade.
 
A shiwaju ogun / Líder na vanguarda
A gbeyin ogun / Líder na retaguarda
 
Apenas o valente vai na frente, e apenas o vitorioso retorna na frente!
 
Ologun Kin / Guerreiro Poderoso!
 
 

Roro 2


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Adendo a Quem não é Olodumare

Postagem original AQUI
 
Consta também em um oriki Oxum, colhido em 1970  em terra Iorubá,
 
"Oshun Olodumare mi", como no de Shango.
 
Fonte: Osun across the Waters, capítulo 4.

"Sob a linguagem do poeta jaz a chave do tesouro". Nizami

A linguagem do Artista, que mente e revela, resguarda e presenteia, é assim, una, não dual, mas completa.

'Ihy Maut! Ankh-na-Maat.'

"Ele que é iluminado com a mais Brilhante Luz moldará a mais Escura Sombra; Ele que é iluminado com a mais Escura Sombra brilhará com a mais Brilhante Luz."
-A. D. Chumbley-