sexta-feira, 25 de março de 2011

Araiwonran



Ale Rese Owuro Rese /

A noite coisa sagrada, de manhã coisa sagrada /

Ere Meji Be Rese

Duas vezes assim coisa sagrada

(trecho de Oriki Logunede)

Ínfero

O profano vê uma pessoa louvando ou orando
Não enxerga, e deduz que ela está falando sozinha

O iniciante pensa, e deduz que o louvor traz a divindade pra perto
Mas a experiencia mostra: que na verdade ela desperta a divindade das profundezas interiores para mais perto da superfície da percepção externa

O profano ouve o idioma sacro
Não escuta, e deduz que é loucura

O iniciante se dedica, e deduz que decorar a tradução confere significado
Mas a experiencia diz: que na verdade o significado é conferido pelo cumprimento da ação que as palavras proclamam

E o sonambulismo guia para o estado verdadeiro que perturba: a mente evoca, a garganta canaliza, a língua articula, o lábio profere o sonho ressurgente da divindade adormecida, e desvela
Que para o invocado a orelha é porta, e o ouvido fechadura

E de dentro do invocante feito portal
Galga do sexo à corôa, o deus desperto

Divindade proclamada e ouvinte
Discretamente iniciou o despertar da percepção

Divindade desperta
Possa a cada novo exercício de louvor e prece vivificar-se mais

Perseverança brilhe forte frente a fronte do l'ouvinte, e reflita vitoriasamente frente o desdém desafiante do incrédulo
Para solenemente festejar, as doçuras da carne a qual emerge

quarta-feira, 23 de março de 2011

Dica de Filme *_*

Para os apaixonados por crianças, animais, folclore, e pela intensidade dos sentimentos recomendo um filme que conta uma estória que envolve laços inquebraveis, conhecimento antigo preservado no folclore, beleza, e perseverança!

Into the West, eu assisti sem ler a sinopse, e recomendaria o mesmo rs

Pode ser assistido (por partes) aqui^^:

http://www.youtube.com/watch?v=YxQQ5_1JNgo

Wyrd



O meu pensamento não possui estrutura sólida

Mas a minha palavra precisa ser vertebrada

Para assegurar a impossibilidade de fossilização do meu pensar, rs

segunda-feira, 21 de março de 2011

(Re)Sacr-alizando o Sacr-ifício

(sem respeito, sem sacralidade)

Sacrifícar é separar, reservar algo para o que se tem por sagrado. Ou separar o que se tem por sagrado, com um propósito sagrado. Que propósito seria esse além da vida, do viver? E qual foco para esse sentimento do que o próprio mundo que o inspira? Não apenas a vida individual, mas a totalidade da vida, a continuação do mundo, dos seres que o animam, habitam, integram.

Um sacrifício pode envolver morte (seja de plantas ou animais), ou pode não envolver morte (no caso de oferecimento/reserva de itens coletados ou objetos separados que não implicam o assassinato de um ser vivo). E é por esse motivo que a polêmica cresce (a causa é a ignorância ou visão de tubo das pessoas mesmo).

Agora um pouco de metáfora, como eu me expresso melhor, risos...

O sacrifício de uma fruta poderia ser colocada em qual categoria (envolve ou não morte)? A fruta enquanto resultado do processo reprodutivo da planta, um invólucro luxuriante propagador de descendência (vida, não individual, mas totalidade da vida enquanto espécie/linhagem). Embora a retirada da fruta possa ser interpretada como ofensiva a sua vida (para todos que tem uma noção individualista da vida), na verdade trata-se da continuidade da vida da planta, de seu processo reprodutivo.

Se a planta frutífera fosse um ser dotado de consciência e faculdades cognitivas humanas ela poderia ser descrita da seguinte maneira: a suculência (polpa, pólen) e a beleza/atratividade (formato, cor, aroma) do fruto ou da flor tem o propósito de instigar o consumo por espécies que por serem locomotivas poderem espalhar as sementes por uma área maior, garantindo assim maior sucesso na perpetuação de seus descendentes, a conquista de mais territórios.

E que forma menos ofensiva, agressiva a da planta... Ao menos porque é difícil assimilar esse processo todo com os processos que a nossa espécie de Homo Sapiens, e por isso torna-o aparentemente ou compreensivelmente menos dramática do que seria numa espécie da mesma classe que a nossa (mamíferos), ou mesmo do mesmo reino (animal, ao contrário da planta, reino vegetal).

Ainda nessa aura inofensiva e luminosa, sutil que a planta exemplifica está a forma de alimentação da mesma, a partir de nutrientes obtidos do solo (sua própria morada) através de raízes (sua própria fundação e sustentação), isso sem mencionar a fotossíntese.

A dignidade disso tudo, a virtude, a excelência, não deveria estar no tom luminoso e atmosfera aparentemente pacífica em que ocorre, ou melhor dizendo "como é observada". Mas sim deveria ser reconhecida por sua eficácia e sustentabilidade, sucesso continuado não autodestrutivo.

Poderia a maturidade dos animais ser igualmente entendida como alarme para seus predadores, como um sinal estimulante de consumo? Nossos ancestrais não eram todos delinquentes que se deleitavam com sanguinolência e imoralidades. E nossos ancestrais significam todas as culturas, não só provenientes do continente africano, mas todos os grupos de humanos onívoros em qualquer parte do planeta que sacrificavam (vide significado no primeiro parágrafo) tudo, inclusive o alimento.Assim como no caso planta-fruto a cadeia alimentar carnívora também perpetua a continuidade da Vida, a prova dessa excelência é novamente a sustentabilidade. E a prova da excelencia das práticas ancestrais também é validada da mesma maneira.

Se todos animais fossem herbívoros e os predadores decidissem aderir à nova dieta é facil visualizar o que seguiria: superpopulação. O que ocasionaria um sofrimento mais prolongado do que uma eventual vítima, e o pior, o sofrimento e o dano não seriam de vidas individuais, mas das espécies como um todo (violência motivada por competição insustentavel e subsequente estado de escassez, desnutrição, etc... ad mortem).

O Ifá explica porque os sacrifícios de humanos foram abolidos, por causa da possibilidade do mesmo consistir num atentado à continuidade da linhagem daquele para quem o sacrifício é feito. Na história do Odu Irete o personagem descobre que o sacríficado era seu próprio filho bastardo. Como poderia o sacrifício ser eficaz se ele não contribuísse para a perpetuação da Vida? É aí que a perfeição, ou ciclo/eternidade do pensamento ancestral se justifica.

A Natureza/Physis se perpetua enquanto se saboreia, se consome... E aí o antigo símbolo da serpente engolindo a si própria é mais um representante ancestral perfeito.

Não que eu veja beleza, ou apóie/concorde com a indústria pecuária, e com a mentalidade de fast-food e de comida sem cara de que já foi viva, nem com as propagandas e embalagens que dissimulam essa mentalidade. Muito pelo contrário!

Tampouco sou a favor da substituição pura e simples (pura e simplesmente nonsense) por um sistema agrícola e aniquilador do solo (base, casa, fundação, sustento), só pra poupar vidas individuais.

A exploração da terra é tão danosa quanto a exploração a outras espécies, além do que 'até mesmo os seres que voam descansam na parte de baixo do mundo, ou em algo que nela se apóia'.

O vegetarianismo politizado que se utiliza do supracitado potencial dramático da morte de espécies irmãs (já condenadas pela domesticação e pelo enfraquecimento/vulnerabilidade causados pela seleção humana). Ele não é muito diferente da indústria da carne e seus produtos: embalagens e propaganda.

O sacrifício é a maneira humana de lidar com o alimento.

Potencial dramático, 'inspiritual', canalizado pra produzir a obra, e o legado, de beleza, não de horror!

É significação, é ação! É drama, rito, canção, lição, memória, cultura. Arte!

E a excelência, a virtude da arte, talvez esteja aqui... Nesse simples hábito sacrifical de poupar tempo, espaço, alimento, que só pode ser perpetuado pelos vivos justamente porque retrata o que vivos os mantém. E talvez o tempo quando ele estava em voga seja testemunha e prova de sua própria sustentabilidade.

Egbokegbo!!!


A força é a desejabilidade do forte
O forte é a naturalidade do vigor

O vigor é a probabilidade da astúcia
A astúcia é a engenhosidade da habilidade

O mais velho tem qual idade?
Os que tem mais idade quando indagados respondem apontando para o que parece mais novo

A criança é pequena mas seu ânimo é grande
O idoso é grande mas se sua sabedoria brilhar mais que sua idade ele pode aquietar o jovem e curar sua ansiedade com aprendizado

Um caráter moldado em barro é mais vulnerável ao tempo e aos tempos
O forjar de um caráter com um material mais resistente não é mais difícil que a dissolução definitiva de um pelo tempo

Ogun Alakaye, Mo ju iba o! Mo juba Alade irin! Ashe!

sábado, 19 de março de 2011

O Passarificado

Recluso e esquivo, desconfiado porém ousado, mais essa vez ousou, Passarinhou

Com todo conhecimento seu, Passarinheceu

E se como Pássaro sempre tivesse ficado, ali permaneceu encantado, Passarificado

Cidadã da Terra

Tantas formas de cultura quantas foram desenvolvidas em cada pedaço de terra
Desta Terra

Tantas fronteiras imaginadas quantas foram concebidas em cada mentalidade temente
Deste Homem

Tantos ritos, tantas combinações de cores, e ordens quantos foram elaborados em cada visão de mundo
Neste Mundo

Vestida com minha pele nua, como elas foram, eu vou
Como animal de carne incapturada e crua

Eu ultrapasso solenemente esses limites todos
Como realidade respirante, transpirante, sangrante

Espirito de vento encarnado em corpo
Ritos, cores, ordens, tantas quantas, e como quer que... a liberdade chamada loucura possa acidentar

Desde fogo, luz, cinza e verdejancia
De sentido arrepiante à olhar de vigilancia

Eu assumo diante do espelho mutante da noite e do dia
De agua tremeluzente e fria

Meu reflexo animal, de minha própria espécie e de irmãs
Como a cidadania sustentavel e pristina, incarnadina

De "caminhante" essencial.

Feliz Equinócio


Tempo de respirar fundo
Mas expirar cuidadosamente

O equilíbrio prenuncia o declínio
Inspiração profunda se intensifica

Na Primavera a respiração é jovem e inconsequente
No Verão ela é madura e resistente, plena

No Outono é acolhedora e contida
Para que o Inverno seja suportado

Que o inhame seja aceito por todos que estão além da vida
Para que ele possa ser bom para a minha própria vida

A suculencia do fruto que suga mais profundamente do leito terrestre
Seja desfrutada pela boa companhia em meu banquete

Fruto da terra, fruto do mar
Sejam bem vistos pelos que vêm me visitar

Axé!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Aos Caçadores de uma única chance

Homenagem em agradecimento aos espíritos da floresta
Obrigada pela dificuldade e pelo foco
Pela lição
Pelo aprendizado
E também pela conquista!



http://www.youtube.com/watch?v=RNROy-gLvS4

Belíssima musica interpretada por Jussara Silveira (composição de Baberto Mendes e Antônio Risério),
Oxotocanxoxo

Okê Okê Okê Arô Alakorô
Alakorô Oxotocanxoxo
Quando ele fecha não abre caminho
Orixá da pele fresca
Alakorô Oxotocanxoxo
Na casa de barro
Na casa de telha Alakorô
Alakorô Oxotocanxoxo
Quando entra na mata
Mata se agita Alakorô
Alakorô Oxotocanxoxo
Ofá é seu fuzil
Uma flecha no meio do fogo
E o fogo apagou
Ofá é seu fuzil
Uma flecha no olho do sol
E o sol sumiu
Alakorô Oxotocanxoxo

sábado, 12 de março de 2011

Outono, Out-one, Aut-um

A estação do meu nascimento se aproxima
E consigo traz mais forte a sintonia

Com o lado de lá
O lado daqui, que eu nunca saí

Eu sonhei que via uma mascara de bom caráter
Se formando, transparente, amniótica

Enquanto eu subia a rua
Mas a sombra dos meus cabelos me seduzia

E ao olhar atras pra apreciar
Um alto preço foi decretado

A máscara não se formara
Eu procurei no mercado um artífice

Que pudesse reproduzir a máscara
Mas nenhuma se encaixava com meu rosto quanto àquela

Perdida, derretida, diluída
Minha face continua uma paisagem desolada, interrompida

As máscaras não escondem o olhar
Entretanto meu é o rosto que possui olhar oculto

Porque máscara não possui.

Owl at Physis garden

A ave povoa a noite com densidade
Sua a flauta de osso que compõe insanidade

Paraliza o encanto e acentua a vaidade hostil
Sua plumagem ésedutora e febril

Expulsar é doce convite

Serpent at Psyches Garden

Uma semente de serpente foi semeada na terra da minha fisicalidade
E floresceu no lago da minha mentalidade uma vitória régia de toxicidade

O afíbio é o anfitrião de si
Incapaz de se mandar embora dali

A surdez tem melodia

terça-feira, 8 de março de 2011

Desvendando Logun Ede

Muita coisa estranha ou inconclusiva é dita sobre Logun Ede, e ainda assim há pouca informação, seja séria ou não, sobre essa divindade. Esse texto tem o intuito de reunir algumas informações diferentes das que comummente circulam sobre esse Orixá.

Esta foto tirada por Verger mostra uma sacerdotisa de Logun que porta na mão direita uma espada cerimonial de bronze utilizada no século 19 por mulheres em suas danças. Na mão esquerda está o ofá/arco e flecha.

Enquanto a relação entre Logun e Oxum é bastante clara (como será exposto adiante), a ligação com Erinle, ou Ibualamo, não parece tão justificável assim. Embora seja comum a afirmativa que seu pai seja Erinle, um Oriki Oxum afirma outra coisa:

Orunto olufe li o bi Logun Ede. (Orunto Olufe gerou Logun Ede; tradução de Verger em Notas sobre o culto aos orixás e voduns, pág. 414)

A ligação literal com Erinle que eu consegui encontrar foi num oriki Logun colhido por Verger na cidade de Ilexá, no qual consta um epíteto em comum com o de Erinle, colhido em Ilobu pelo mesmo:

Para Logun: Ala opa fari (Ele mexe os braços fantasiosamente)

Para Erinle: Apa fari (Ele movimenta os braços com imaginação)

Quem é/foi Orunto Olufe que figura nessa cantiga de Oxum exposta por Verger?

Orunto Olufe, provavelmente o mesmo que OBALUFE ORUNTO.

Segundo Bascom "Orunto também é conhecido como rei da cidade de Ife, Obalufe, Oba Ilu Ife" Neste sentido Orunto é considerado um gvernante de Ife pré-Odudua. (trecho de ‘African notes: Volume 8’, University of Ibadan. Institute of African Studies - 1979).

Ainda de acordo com Bascom, “(Orunto...) também conhecido como "Oni do exterior, de fora" (Oni ode) porque ele governa fora do palácio. Em Ife havia chefes externos que eram responsáveis por cada distrito da cidade, Orunto em específico era primariamente responsável pelo distrito de Iremo, mas como nos tempos antigos o Oni só saía em público duas vezes ao ano durante festividades de Orisanla e Ogun, cabia a Orunto a responsabilidade pela cidade inteira no lugar do Oni (por isso era chamado de Obalufe, isto é Rei de Ife).

O porque do chefe desse distrito em particular (Iremo) ser escolhido para essa função justifica o porque Logun ser considerado um príncipe. A afirmação de que essa escolha aponta para uma linhagem anterior a Odudua que teria sido mantida dessa forma parece bem plausível já que o único contato pessoal entre o Oni e o Obalufe, que só ocorre uma vez por ano durante o festival de Edi, acontece na forma de uma batalha simulada.

Em Ijebu-Ife (local tido como a origem do Orunto, conhecido localmente como Balufo Ijaogun) ocorre uma cerimônia na qual os sacerdotes-chefe de Obalufe Orunto são identificados como pessoas que teriam possuido a terra anteriormente à ordem vigente e são eles, não o Oni ou algum sacerdote da linhagem de Odudua, que fazem as oferendas para apaziguar os deuses do solo. John Wyndham afirma em seu 'Myths of Ife', que o Obalufe clama ser descendente de Oxum.


A ligação entre Logun e Oxum é reforçada desde que é possível observar sua presença em mais Oriki de Oxum.

Trechos de Oriki a Oxum (Verger, Notas sobre o culto aos orixás e voduns, pag. 415):

Yeye Ologun ede obinrin Pepe bi eni se osu (Mãe de Logun ede, mulher trivial como alguem que prepara o legume osu)

Ologunede o gb(e) èru kò s(e) ayo (Ologunede, aquele que tem medo não pode tornar-se uma pessoa importante)


Na página 418 há uma cantiga (cuja tradução que consta é bem rudimentar) proveniente de Ouidah listada entre as de Oxum, mas entre parênteses está escrito “para Logun Ede”, seguem os trechos que considerei interessantes:

Nigbo ti ko yeye mi (Onde que torna mostrar minha mãe)

Mo ko nigbo Ogun ode (Eu volto a mostrar onde Ogun ode)
...

Kabo ti ko yeye mi (Onde que encontrar mãe minha)

Akuko nlá a bi(i) di rodo (Galo grande ele com cauda desdobrada)



Se considerada uma correspondencia entre as frases (as duas ultimas são referidas como refrão), então a frase 'Akuko nlá a bii di rodo' refere-se ao supracitado 'Ogun ode'.

Algumas pessoas afirmam que Logun possui ligação com Ogun, de fato são Orixás caçadores, mas além disso há um Orixá que possui forte ligação com Oxum cultuado na cidade de Oxogbo chamado Owari, ele é tido como o artesão que fabrica as jóias de cobre que Oxum usa, e
a tradição afirma que os filhos são as verdadeiras jóias de Oxum. Se as jóias são os filhos, e o fabricante dos filhos-jóias é Owari, então ele pode ser considerado o pai de Logun Ede, no Brasil existe uma divindade adorada sob o nome de Ogun Wari. Como Ogun, tanto Owari quanto Erinle são considerados artífices metalurgicos. A relação entre Erinle e Oxum se dá tambem quando o curso do rio Erinle atravessa o de Oxum em Ilobu.

Deste modo a paternidade de Logun pode variar de acordo com a região em que Oxum seja cultuada, afinal: Loogun-ede? Osun ni! (Loogun-ede? Ele é Oxum!). Tamanha a ligação entre os dois, é com essa frase que um antigo sacerdote de Oxum em Oxogbo respondeu quando indagado sobre Logun!

E quanto à característica infantil de Logun, cito duas passagens de Oriki:

Abikehin yeye tii yo gbogbo omo omi lenu (Filho mais novo da mãezinha (Oxum) que se diverte com os outros filhos das aguas)

Tima l(i) ehin yeye (r)e (Encarapitado nas costas de sua mãe)


A fama de ser muito belo também consta em Oriki:

Okansoso gudugu (Ele é muito só e muito belo)

Oda d(i) ohun (Ele é belo até na voz)

Ajangolo okunrin (Homem esbelto)

Ati bitibi ilebe (Ele usa roupas finas)

O dara d(e) eyin oju (Ele é belo até nos olhos)

Okunrin sembeluju (Homem muito belo)


Com Oxossi também compartilha alguns epítetos:

Logun: Oda bi odundun (Ele é fresco como a folha de odundun)

Oxossi: A bi awo lolo (Que possui a pele fresca)

Seus animais parecem ser o leopardo e o falcão/gavião:

Ekun o b(i) awo fini (Leopardo que tem o pêlo muito belo)

Rere gbe adie ti on ti iye (O gavião pega o frango com suas penas)

Panpa bi asa asode bi ologbo (Rapido como um falcão, aquele que caça como um gato)


Por fim duas frases de seu /oriki que citam nomes de outras divindades (Orumilá e Xapanã):

Okansoso Orunmila a(wa) kan ma dahun (Somente em Orunmila nós tocamos, mas ele não responde)

O je oruko bi Soponna sos pe on Soponna e nia hun (
Ele tem um nome como Soponna,
é difícil alguém mau chamar-se Soponna)


Concluo este texto com um trecho de uma tese de doutorado da PUC-SP de autoria de Maria das Graças de Santana Rodrigué, entitulada 'Orí, na tradição dos Orixás - Um estudo nos rituais do Ile Ase Opo Afonja', que contém uma informação que só tomei conhecimento muito recentemente:
O templo de Ifá encontra-se, na cidade de Ilé Ifé na Nigéria e no ápice do Monte Ijetí está cravado o sacrário de Ifá, e ao lado na mesma colina está o assentamento do Orixá Logun Edé. Colina encalorada devido a sua constituição rochosa a base de mica, mineral do grupo filosicato e o clima da região ser equatoriano. Lá o orixá Logun Edé é reverenciado e conhecido como o escrivão de Ifá. Durante a visita que fizemos à esse templo, perguntamos ao Sacerdote de Oxalá que nos acompanhava: __ quem é mesmo o orixá escrivão de Ifá? Ele respondeu é Logun Edé. Esse fato ocorreu em agosto de 1989.

Assim espero que esse texto sirva pra pessoas que, como eu, não se contentaram com os textos comumente veiculados na internet e até mesmo em livros sobre o Orixá Logun Ede.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Vorazarov

Eu sou a serpente dos caminhos

Meu percurso é como fogo dos desertos

Não erro nem redimo audácias

Eu que grandiosamente me movo

No raiar que mede os horizontes

Eu sou pura água e doce secura

Eles que gemem de suas dores não conhecem o meu vivido veneno

Eles não sangram nem estancam

Eles sempre questionam a sabedoria

Eu descasco e corrôo abaixo

Eu lustro e reluzo acima

Sou uma coroa e um martírio

Eu organizo as águas do sonho de meu pai com prazer e luxuria

Descendo e chovendo em cascatas de mistério

Que para os meus são canção de pura arte

Eles que se reúnem para regar minha arvore de conhecimento

Eles que descansam sob minha grandiosa sombra

Eles sonham para despertar ao lado do altíssimo com as mais belas artes jamais sussurradas

Eu que jamais fui expulso da glória

Vencerei para reunir os pomos que não apodrecem

Eu que branco decido o florescer da história com rumos que desafiam o tempo

Sou um velho brincalhão e uma criança sórdida

Organizando as bandagens dos ventos

Sou um grito de ave que abala as hostes à distância

Sou limite quebrado e corrida perpétua

Intercalando as cores e suas sombras

Sou luz radiante que para o impuro é sempre tormento

Abençoados sejam os que assoviam perante a hóstia

Peregrinos amados das pontes e das beiras

Sobre os quais são contadas preces mudas a ouvidos surdos.

Outra Página do Esplendor

Agora que seja dito o que estava oculto sob as superfícies que tu alcançara
Revelado é, posto que isto mesmo que corria feito um rio subterrestre agora viola a superfície do inferno para que verdeje sobre a superfície do inverno, o desdobrar da severidade por misericórdia para que se cumpra a promessa de harmonia!
O que havia sido re-velado e não entendido para que tu esquecesse
E assim o mistério subterrestre fosse vivenciado, no esquecimento para que o triunfo fosse re-conhecido e não pudesse escapar, saiba então:
O serviço antepassado na vida da família de barro trincara
O serviço mal-feito e o ofício mal-dito
Segredados e proibidos, entretanto tu os desvendara, ó meu fogo!
A ousadia em tua jornada foi a origem da renovação do fogo em tua linhagem, desde a fagulha em teu nascimento profano até as estações sagradas que te alimentaram o fogo cautelosamente para que não queimasse a casa do barro e a família deste, e deste modo te foste preservada, deusa!
Cada abertura de carne que proferiu a ti era um sentido de mim em todos, um sentido sagrado nos corpos profanos, para que tu assimilasse o aprendizado de teus sentidos sagrados em teu ser sagrado, ó tu restauração! E para que não tentassem profanar-te com sensura apaixonada, ó tu paixão! E conhecesse apenas a paixão de nós
A morte então agaixou-se ali para te alcançar, virtuosamente entre os profanos, mas nada além da vida sofre ameaça do que na vida está,
E assim Morte, teu Pai e Professor alcança-te sem perigo
E assim Morte o despertara:
Aproxima-te, deusa, e nove vezes deixa que a tua testa febril toque o meu braço direito, com os olhos fechados conforme a lição foi aprendida
Assim a majestade de minha corôa restaura a realeza de tua linhagem sobre os meus domínios, a pena sangrante na corôa te faz edificada, deusa, por completo, possuidora do vôo do pássaro e do fluir do sangue, sua veste branca é agora negra
Para envolver o segredo daquela que porta o segredo, não outra que não tu!

Página do Esplendor

Ela é o mar
E do mar vêm os vermelhos e os brancos
O mar de sangue, que é alimento do espírito que vive e regozija-se
O sangue se fortalece quando é lembrado
A lembrança legitimiza a força do sangue
O sangue perpetuado na linha de nobreza
E este é o amor dito nas palavras do Livro do Esplendor
Aqueles que não se lembram
Aqueles do sangue diluído
Eles não podem ver a trilha sanguínea que conduz à origem das coisas
Aquele mar onde a sabedoria de todos os rios, os que virão e os que vieram, está saturada
Pelo desafeto e pela prisão de seus desejo e vontade eles se tornaram fracos
Eles são o barro que alimenta o fogo, barro profano que não vê, que não sente!
Saiba então que Ela que é o mar de onde vem todas as coisas
É para onde retornam todas as coisas fracas
E por isso ela nunca está saciada
E por uma gota do seu sangue e saliva e suor e sêmem e leite Ela tremerá e te acolherá nos braços
E te abraçará e sufocará com as coxas de um dragão
PAra que não caia em Sua vala ou se enrosque em seu mênstruo ou fique preso em sua teia, honre-a
Honre-a com um espelho ondulante nas noites escuras
Honre-a com um espelho plácido nas noites claras
Honre-a com a lembrança do escapar e da audácia
Ela que é o mar não é Ela que é o céu
Ela que está no céu é d'Ela que é o céu, para aquela que é é o mar
E eu que sou um mistério entre tudo isso lhe digo todas estas coisas
Por amor, por amor!

Fazendo diferente

Eu não lembro a primeira vez em que eu me transformei pra sempre
Em uma fome insaciavel por algo desconhecido

Então eu devorei minha própria essencia
Desde então as cores não fulguram na aparência

Sombras de segredo germinam nas raízes indizíveis
Expandindo silenciosamente a negritude familiar à pele

As árvores que eu já ouvi
Estão respirando violentamente

As sendas que eu já descobri
Embaralham-se pelos rios sanguíneos do meu corpo

As tranças que eu já aprendi
Emaranham-se pelas pegadas que eu não ouso olhar

O espelho reflete a minha plenitude
Transbordantemente desperdiçada no cenário incerto da convicção mundana

Plenitude é uma máscara tenebrosa
Que cai a cada amanhecer

O sol é uma dor imensurável
Que se renova a cada anoitecer

Não existe conserto ou reparação
Que não traia a minha essência

O segredo dos deuses humanos não seduz a minha curiosidade felina
Prefiro caçar o inconstante luar

Até que a maré baixe e esponha os sonhos fossilizados
Das caçadas que eu desfrutei dormindo

Agradeço à mariposa que me polinizou
Agradeço ao fél que me embalsamou

Liberto o vociferar que chicoteia o ínfero
Prolifero o linguajar bifurcado que acaricia o íntimo

Faço com culpa e pesar
Pra fazer diferente

"Sob a linguagem do poeta jaz a chave do tesouro". Nizami

A linguagem do Artista, que mente e revela, resguarda e presenteia, é assim, una, não dual, mas completa.

'Ihy Maut! Ankh-na-Maat.'

"Ele que é iluminado com a mais Brilhante Luz moldará a mais Escura Sombra; Ele que é iluminado com a mais Escura Sombra brilhará com a mais Brilhante Luz."
-A. D. Chumbley-