domingo, 29 de janeiro de 2012

Caçando a Lua – Um vislumbre do conceito lunar sob a ótica Iorúba no contexto da caça (do guerreiro-caçador Logunedé)

Ou: Porque é difícil (mas não impossível) acertar sobre a intangibilidade - já que brilhante e sob o sol o leopardo é difícil de se ver, imaginemos à noite. E se o leopardo veste a pele que desejar (dourada ou negra), mais difícil ainda. E se o leopardo é na verdade um caçador que se transforma no que quiser...

~*~

Ologun di óshupa

Da oun ti o maa dá kin ri ó
Ologun transformou-se em lua
Transforme-se no que desejar para que eu possa vê-lo
(Sikiru Salami, Cânticos dos Orixás na África)

O caçador é o desbravador do desconhecido, que penetra no reino dos animais selvagens para garantir a subsistência de seu povo. Lá ele descobre lugares propícios ao estabelecimento de novas habitações. Explorando o terreno do desconhecido ele conhece não apenas os animais, mas também as plantas tornando-se assim o médico por excelência.

Como a lua, da perspectiva terrestre, desaparece na escuridão celeste, também o caçador da perspectiva dos não-caçadores desaparece em meio ao solo inabitado. Como a lua volta a brilhar trazendo a benesse da luz, igualmente retorna o caçador trazendo a benesse do alimento. (O mesmo aplica-se à relação entre o agricultor ou coletor de vegetais e o sol. etc)

Do próprio ponto de vista do caçador em relação a sua atividade de caça a lua é importante. O caçador prefere o escuro para caçar, segundo Daniel Peters em seu Yoruba and her cultural beliefs, , ele (o caçador) começa sua incursão na floresta entre o primeiro e ultimo dias do quarto crescente porque o tempo de escuridão da noite é maior, e que nos periodos logo antes e após a lua cheia o caçador cessa suas atividades. Num contexto geral a lua também mede a duração dos meses, e cada mês é nomeado oshu-"nome", ou lua-tal.

Na cultura Ioruba a lua é também símbolo de majestade e sobressalência porque ela é vista sobressaindo-se entre as estrelas. Talvez exista relação a este conceito na própria nomenclatura que ela recebe (oshú, oshúpá) já que a mesma palavra para lua e relevo é empregada, com diferença apenas na entonação. Quando um novo rei é coroado é comumente dito “oshú tuntun le / há uma nova lua”.

Logun é a lua por causa de tudo isso, mas também porque a lua é mutante. Logun é o ’xamã’ que se transforma em animais, e transforma-se em animais porque compartilha o mesmo domínio destes, é detentor do conhecimento da natureza desconhecida do aldeão, do urbano.

Logun transforma-se no que lhe aprouver, sem perder sua identidade, pois seus próprios devotos cantam “transforme-se no que quiser para que eu possa vê-lo”, mesmo transmorfo eles o reconhecem, sua identidade única se sobressai à sua múltipla forma. Identidade esta que, para aquele que falha em compreender o intangível, permanecerá um mistério.

A ri gbamu ojiji
Ókanshosho Órunmila a wa kan má dahun
Nós somente o vemos e o abraçamos como se ele fosse uma sombra
Somente em Orunmila nós tocamos, mas ele não responde
(Verger, Notas)


Ashé!


ADENDO
:

Segundo a obra Itan Ido Ijebu, escrita pelo Dr. Badejo Oluremi Adebonojo, o seguinte é narrado sobre a cidade de Ife-Ijebu:
A História dessa cidade tem sido escassa pois foi ritualmente decretado, nos idos tempos de sua fundação, que a história da cidade não deveria ser contada. Entretando por volta de 1920-21, durante a controvérsia entre o Chefe Jewo Oropoo e o Ajalorun daquela época, bem como o atrito posterior de 1932 entre Balufo e o então Ajalorun, um pouco da história da cidade foi esclarecida.

Ekun Tete foi o primeiro Rei de Ife-Ijebu. Ele era conhecidamente um adorador assíduo dos deuses tradicionais, sendo o cabeça dos “agbohun ona-orun” em Ile-Ife. Antes que ele abandonasse a cidade por conta de seus hábitos religiosos, foi ele quem requeriu que Balufo Ijaogun fizesse um sacrifício para “Aija ni orun”. E assim Ekun Tete tornou-se Ajalorun, e recebendo assim o louvor poético (oriki) de: “Ajalorun Ekuntete”. Este foi o Balufoo cujo nome foi mudado para “Orunto Olufe” de Ilê-Ife pelo qual ele é conhecido até os dias de hoje. Foi durante o reinado de Awujale Oba Mooyegeso (1710-1725) que Ajalorun chegou em solo Ijebu. Entretanto,em 1937,durante o conflito entre Remo e Ijebu-Ode, o então Ajalorun, Oba Olugbofega, foi citado por ter afirmado que o Ajalorun era o substituto de Oduduwa de Ilê-Ife e também que ele viera a terras Ijebu antes de Obanta. Após Olugbofega, Asani Mabadeje tornou-se o Ajalorun em 1943. E foi durante o reinado de Oba Asani Mabadeje que as ambiciosas afirmações do Ajalorun foram reprimidas.

Se em Notas sobre o culto aos Orixás e Voduns (Verger), temos:
Orunto Olufe gerou Logunedé

E se o Orunto Olufe fora Ajalorun, no Yoruba Myths de Uli Beier temos o segunte:
...Ajalorun é quem gerou a lua...

No site oficial do Ooni de Ife há uma página sobre o Obalufe (link) (mesmo que Oruntó Olufé) na qual consta uma lista com os nomes próprios de cada um dos awon Obalufé até o presente, nesta lista o primeiro nome é Ajagusi, o mesmo do pai de Eyinlé!

Gbogbo odó kêkêkê ti nbé ninu igbô Ajagusi wón gbãrijó, won fi Ábatán jóba ninu omi
Todos os regatos da floresta de Ajagusi reúnem-se, e tornam Abatan o rei das águas
(Orin Eyinlé, Tradition and Creativity in Tribal Art, de Daniel P. Biebuyck)

Em The history of the Yorubas : from the earliest times to the beginning of the British Protectorate, do Samuel Johnson, consta o seguinte, sobre os Orilé, algo como totems:
Agbó (carneiro) totem de Ajagusi, pai de Erinlé...

Jójó bi agbo
Altivo como o carneiro
(Oriki Logun, Verger, Notas)

E o cerco se fecha.

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"Sob a linguagem do poeta jaz a chave do tesouro". Nizami

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'Ihy Maut! Ankh-na-Maat.'

"Ele que é iluminado com a mais Brilhante Luz moldará a mais Escura Sombra; Ele que é iluminado com a mais Escura Sombra brilhará com a mais Brilhante Luz."
-A. D. Chumbley-