quinta-feira, 15 de maio de 2014

Exu

Ao contrário do que muitos pensam, a cosmovisão das populações que são comumente agrupadas sob o nome Yoruba (este termo originalmente designa os Oyó) é diversa como as variações da própria Língua entre elas.

Dentre essas populações cada reino possui uma divindade distinta ocupando uma posição de destaque, que pode variar de um período a outro em sua história devido a muitos fatores, políticos, sociais, de desenvolvimento tecnológico, etc.

De modo ainda mais específico, o culto a cada uma destas divindades em uma mesma região considera a sua divindade a mais importante dentre todas as outras. Assim, por exemplo, os cultuadores de Oxum consideram-na a esposa favorita de Xango, o mesmo com os de Oya. Ou então atribui-se a criação do mundo a Odudua em certos lugares, noutros é Orixala o responsável por tal feito. Etc.

A cristalização do panteão é uma tentativa de alguns autores de estabelecer uma ordem que é alienígena a própria cultura "Yoruba".

De toda literatura que conheci até hoje pude notar que existe uma divindade que é universal a todas as regiões, sendo inclusive cultuada nos cultos especializados em outras divindades e cujo papel é basicamente fixo, Exu!

Tive acesso a partes de um texto interessantíssimo, dadas todas as observações supramencionadas, pois o mesmo tem como fonte os especialistas do culto de Exu propriamente, em solo Yoruba. Trata-se da incrível obra  em dois volumes de Ayodele Ogundipe, "Esu Elegbara, the Yoruba God of Chance and Uncertainty: A Study in Yoruba Mythology".

 O texto é único e elucidante, pois consiste de exegeses bem como de literatura sacra do culto, mas igualmente relevante por ser livre de vieses, algo tão comum neste campo que costuma tender a comparação e a rejeição de tudo que pareça contraditório e aberrante, algo sob a édige do próprio Exu e inevitável quando o assunto é tão pessoal como a esperiencia místico-religiosa! (risos)

A seguir constam trechos traduzidos livremente por mim que espero sirvam para a elucidação acerca de Exu.

A todos que por ventura venham com ele encontrarem-se. Exu Laroye!




~*~

"Em Iddo dizem que o pai de Exu é Ogum, e que é por isso que em seu templo o emblema de Ogum figura ao lado do de Exu. Quando a ascendencia de Exu é citada em todos os outros lugares nos quais foram colhidos dados para este estudo, ele tem pais humanos, em vez de divinos, mas as circunstâncias de seu nascimento e infância são mais incomuns. Em um relato somos informados de que Esu é nascido a um homem chamado Osunsun e sua esposa.
Esu nasce enquanto seus pais estão a caminho do mercado e é posteriormente nomeado Laalu (A Honra da Cidade) por seus pais terrenos. Em outra história, Esu nasce de Ketu, uma mulher que ultrapassara da idade de ter filhos. Ela e seu marido, Osun, viviam em Iseri, próxima a atual Lagos. Neste conto particular, Esu é o típico infante terrível do folclore.Nascido de pais idosos após uma previsão oracular, o nascimento de Esu é bem incomum, porque ele é parido depois de apenas três meses no útero. Ele caminha ao nascer, uma ameaçadora criança super-precoce. Sua adolescência e início da vida adulta são tão aterrorizantes quanto o seu nascimento. Ele causa estragos em toda a sua volta até que de repente e misteriosamente ele se reforma e é transformado em um personagem magnanimo, benevolente. Na verdade, ele se torna o orgulho ea alegria de sua cidade."

"Esu vive nas encruzilhadas e em locais abertos, uma modo como as pessoas sabem que ele está lá, especialmente depois do anoitecer, é pelas baforadas de fumaça de seu cachimbo. Vendo o brilho do cachimbo, os transeuntes saudam-no: "Epa Esu!"

"Exu.
Digno de adoração como o Destino!
O marido da minha mãe!
Dono de um chicote de ouro!
Consumidor do sacrifício para salvar o homem
Inquieto como o contador de estórias"

"Divindade pequenina como um duende, venha para casa comer purê de inhame,
Venha comer o festivo-ewo,
Ele não tem nenhum mestre,
Ele respira e incha como uma víbora
Divindade que não reconhece mestre algum na terra,
Nem senhor no céu! 
Poderosa cabaça frutificando no coração de uma rocha!
Forte chuva, terror do proprietário de uma casa de palha!
Guisado Abundante crivado de fungos!
Generosa porção de
intragável amargo! 
Areia movediça sem base sólida, que engole o corpo inteiro."

"Exu, pai!  
Exu, pai! 
Exu, pai! 
Possuidor de pés velozes! 
Ágil e inquieto! 
Aquele que se espalha e que, uma vez espalhado, não pode ser reunido novamente 
Nascido no caminho para o mercado 
Se caminhas através do remendo do amendoim  
Mal podemos enxergar Sua cabeça
 Por causa de sua grande estatura. 
Que faz o que lhe apraz 
Tens olhos e mesmo assim chora pelo o nariz  
Ponta da navalha
 Dormes escorando-se contra um porrete"

"Incrível, temível divindade
Xango, Oiá, Oxum, Ifá
Nenhum deles ousa negar a existencia de Exu"






"Sob a linguagem do poeta jaz a chave do tesouro". Nizami

A linguagem do Artista, que mente e revela, resguarda e presenteia, é assim, una, não dual, mas completa.

'Ihy Maut! Ankh-na-Maat.'

"Ele que é iluminado com a mais Brilhante Luz moldará a mais Escura Sombra; Ele que é iluminado com a mais Escura Sombra brilhará com a mais Brilhante Luz."
-A. D. Chumbley-