domingo, 21 de setembro de 2014

Historicidade

Este texto não visa diminuir a característica metafísica e arquetípica/impessoal (a força) do orisha. Foca na corrente (no físico) mas sem menosprezar onde ela está ancorada (no mistério).


Bàbárákẹ̀ Lóógun-ẹ̀dẹ.
(Grafia presente em: The Traditional Theologians and the Practice of Òrìṣà Religion in Yorùbáland. Author(s): Thomas Mákanjúọlá Ilésanmí. Source: Journal of Religion in Africa, Vol. 21, Fasc. 3 (Aug., 1991), pp. 216-226)

No mesmo documento consta o nome Bàbárákẹ̀, sozinho porém com a mesma grafia que aparece acompanhado do segundo nome composto 'Lóógun-ẹ̀dẹ', associado a uma cidade Ijesha chamada Igangan, na qual o mesmo ocuparia o posto de principal e exclusivo foco de culto.

Em Africana Marburgensia, Volume XXI, p. 27, temos a grafia Baba Arake, desta vez sem acentuação, também associada à Igangan. Embora aqui não se faça menção a Logun-ede, diz sobre o Baba Arake o seguinte "caçador do século dezessete".

Em History in África, Volumes 6-7, p.140 consta "Igangan localiza sua fundação no reinado de Waye, e tem Babarake como fundador, Babarake foi companheiro de Obalogun na Guerra Nupe. Obalogun é adorado em Igangan". O mesmo documento diz sobre Obalogun "adorado por caçadores e tido pela tradição como o herói que liderou Ijesha em sua vitória sobre os Nupe".

Caso o Loogun-ede quando junto de Babarake não seja uma alusão ao Obalogun, então Logun-ede fora o fundador de Igangan. Ou então Logun-ede é o Obalogun. De qualquer modo temos muitas características em comum com o orisha, são elas: associação à caça, à guerra, e o nome em si.

A caça e a guerra são intrinsecamente relacionadas na cultura Yoruba como um todo, deste modo é natural que uma personagem, quer tenha ou não o status de orisha, ser associada às duas atividades ao mesmo tempo, assim sendo o nome acaba sendo o fator determinante de identificação.

Sua ligação com Oshun é facilmente entendida. Já que ela é a divindade mais proeminente dessa região e desse grupo étnico (Ijesha).

No mesmo texto mencionado no primeiro paragrafo dessa postagem temos o seguinte "Ogun, Shango, Oshun, Orunmila, Obatala e Oduduwa eram heróis regionais antes de sua subsequente popularização. Alguns destes orisha foram tão popularizados politicamente e mitificados teologicamente, que eles acabaram assumindo reconhecimento universal, em teoria, dentre os Yoruba, sem referencia à seus locais e proveniências históricas originais".

Ao meu ver foi isso que aconteceu com Logun na diáspora, aqui com os orisha sendo cultuados em conjunto, cada um teve uma qualidade mais acentuada, diferentemente do que vemos nos oriki, ou seja, um orisha sendo o olodumare, o ser supremo de seu devoto, responsável pelo sucesso em todos os campos. Assim, aqui Ogun ficou com a belicosidade, Oshosi com as atividades de caça, e Logun-ede ficou como uma refração de Oshosi e de Oshun, possivelmente por estes dois possuírem mais devotos. O fato de Ogun, no Brasil, ser associado apenas à guerra e à metalurgia (e não também à caça) exemplifica bem essa simplificação, já que Oshosi era a divindade caçadora com mais devotos, o candomblé Ketu.
 
Nota: É interessante que o sufixo "kẹ̀" em Babarake possua a mesma grafia do kẹ̀ nos orin Logunedé colhidos por Verger e pelo Baba King.
 
 

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